domingo, 3 de maio de 2015

POEMA À MÃE



No mais fundo de ti,
eu  sei que te traí, mãe.

Tudo porque já não sou
o retrato adormecido
no fundo dos teus olhos.

Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais.

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura.

Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos.


Mas tu esqueceste muita coisa;
esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!

Olha – queres ouvir-me? –
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;

ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;

ainda ouço a tua voz:
     Era uma vez uma princesa 
     No meio de um laranjal...

Mas – tu sabes – a noite é enorme,
e todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a


 

 beber.

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.

E deixo-te as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves.



EUGÉNIO DE ANDRADE

terça-feira, 17 de março de 2015

TEATRO



Mudam-se os tempos





Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança:
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança:
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem (se algum houve) as saudades.


O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.


                  E afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto,
Que não se muda já como soía.

Luis de Camões


quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Cada dia é mais evidente que partimos


Cada dia é mais evidente que partimos
Sem nenhum possível regresso no que fomos,
Cada dia as horas se despem mais do alimento:
Não há saudades nem terror que baste.

Sophia de Mello Breyner Andresen

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

NÃO QUERO MAIS QUE SER...


Não quero mais que ser um barco verde
da madeira mais clara do cristal
um barco,meu amor,uma clareira
na rota da estrela incarnada num mural

melhor diria ser um cravo rubro
da pétala mais voadora do pinhal
uma abelha,meu amor,uma fogueira
em campo branco,minha terra no areal

talvez soubesse ser um marinheiro
da saudade mais longa do choupal
um cais,meu amor,uma ribeira
desenhada numa tela ou um trigal

Ou então,se a mais não tiver tempo
levarei a tiracolo aquela brasa
que apanhei no vento em noite escura
e hoje bebo como água,como nervo,como casa


manuel branco

segunda-feira, 16 de julho de 2012

A BELA E PURA


A bela e pura palavra Poesia
Tanto pelos caminhos se arrastou 
Que alta noite a encontrei perdida
Num bordel onde um morto a assassinou.

Sophia M. B. Andresen
Obra Poética II

sábado, 30 de junho de 2012

MÃOS FERIDAS NA PORTA DE UM SILÊNCIO



Vida que às costas me levas
porque não dás um corpo às tuas trevas?

Porque não dás um som àquela voz
que quer rasgar o teu silêncio em nós?

Porque não dás à pálpebra que pede
aquele olhar que em ti se perde?

Porque não dás vestidos à nudez
que só tu vês?

(Natália Correia)