quinta-feira, 1 de novembro de 2012

NÃO QUERO MAIS QUE SER...


Não quero mais que ser um barco verde
da madeira mais clara do cristal
um barco,meu amor,uma clareira
na rota da estrela incarnada num mural

melhor diria ser um cravo rubro
da pétala mais voadora do pinhal
uma abelha,meu amor,uma fogueira
em campo branco,minha terra no areal

talvez soubesse ser um marinheiro
da saudade mais longa do choupal
um cais,meu amor,uma ribeira
desenhada numa tela ou um trigal

Ou então,se a mais não tiver tempo
levarei a tiracolo aquela brasa
que apanhei no vento em noite escura
e hoje bebo como água,como nervo,como casa


manuel branco

segunda-feira, 16 de julho de 2012

A BELA E PURA


A bela e pura palavra Poesia
Tanto pelos caminhos se arrastou 
Que alta noite a encontrei perdida
Num bordel onde um morto a assassinou.

Sophia M. B. Andresen
Obra Poética II

sábado, 30 de junho de 2012

MÃOS FERIDAS NA PORTA DE UM SILÊNCIO



Vida que às costas me levas
porque não dás um corpo às tuas trevas?

Porque não dás um som àquela voz
que quer rasgar o teu silêncio em nós?

Porque não dás à pálpebra que pede
aquele olhar que em ti se perde?

Porque não dás vestidos à nudez
que só tu vês?

(Natália Correia)

quinta-feira, 17 de maio de 2012

CARTA DE AMOR DE FERNANDO PESSOA A OFELINHA


“9/10/1929

Terrível Bebé:

Gosto das suas cartas, que são meiguinhas, e também gosto de si, que é meiguinha também. E é bombom, e é vespa, e é mel, que é das abelhas e não das vespas, e tudo está certo, e o Bebé deve escrever-me sempre, mesmo que eu não escreva, que é sempre, e eu estou triste, e sou maluco, e ninguém gosta de mim, e também por que é que havia de gostar, e isso mesmo, e tudo torna ao princípio, e parece-me que ainda lhe telefono hoje, e gostava de lhe dar um beijo na boca, com exactidão e gulodice e comer-lhe a boca e comer os beijinhos que tivesse lá escondidos e encostar-me ao seu ombro e escorregar para a ternura dos pombinhos, e pedir-lhe desculpa, e a desculpa ser a fingir, e tornar muitas vezes, e ponto final até recomeçar, e por que é que a Ofelinha gosta de um meliante e de um cevado e de um javardo e de um indivíduo com ventas de contador de gás e expressão geral de não estar ali mas na pia da casa ao lado, e exactamente, e enfim, e vou acabar porque estou doido, e estive sempre, e é de nascença, que é como quem diz desde que nasci, e eu gostava que a Bebé fosse uma boneca minha, e eu fazia como uma criança, despia-a, e o papel acaba aqui mesmo, e isto parece impossível ser escrito por um ente humano, mas é escrito por mim.

                                                                                                                                         Fernando”

In “Cartas de Amor de Grandes Homens”

segunda-feira, 14 de maio de 2012

AGORA É TARDE



 Por que não fomos
indiferentes desde o começo?
Por que não te ignorei
nem tu me estranhaste?

Agora é tarde, a tua voz
é o livro aberto onde eu peco
sem jamais o querer fechar.

Se vestíssemos
o rosto de uma lembrança distante
desabraçada no lixo…

Se zombássemos
da temperatura das línguas
e rasgássemos o estandarte do gozo…

Mas não,
é o prazer que nos tortura
a alma de alegria e nos liberta
de enfados e remansos medonhos.

Mas não,
somos a sensatez derrotada
pela nossa própria ternura, a festejar
com doçura um triunfo irrecusável.

Nilson Barcelli  - http://nimbypolis.blogspot.pt/


segunda-feira, 16 de abril de 2012

A CIÊNCIA TEM DE VERGAR-SE À POESIA

"- Ah, o amor! O que é o amor? Ninguém compreende. Neste ponto, a ciência tem de vergar-se à poesia.

 in Breve história dos tractores em ucraniano
Marina Lewycka

sexta-feira, 13 de abril de 2012

BEIJO


Beijo na face 
Pede-se e dá-se: 
             Dá? 
Que custa um beijo? 
Não tenha pejo: 
             Vá! 

Um beijo é culpa, 
Que se desculpa: 
             Dá? 
A borboleta 
Beija a violeta: 
             Vá! 

Um beijo é graça, 
Que a mais não passa: 
             Dá? 
Teme que a tente? 
É inocente... 
             Vá! 

Guardo segredo, 
Não tenha medo... 
             Vê? 
Dê-me um beijinho, 
Dê de mansinho, 
             Dê! 


Como ele é doce! 
Como ele trouxe, 
             Flor, 
Paz a meu seio! 
Saciar-me veio, 
             Amor! 

Saciar-me? louco... 
Um é tão pouco, 
             Flor! 
Deixa, concede 
Que eu mate a sede, 
             Amor! 

Talvez te leve 
O vento em breve, 
             Flor! 
A vida foge, 
A vida é hoje, 
             Amor! 

Guardo segredo, 
Não tenhas medo 
             Pois! 
Um mais na face, 
E a mais não passe! 
             Dois... 


Oh! dois? piedade! 
Coisas tão boas... 
             Vês? 
Quantas pessoas 
Tem a Trindade? 
             Três! 

Três é a conta 
Certinho, e justa... 
             Vês? 
E que te custa? 
Não sejas tonta! 
             Três! 

Três, sim: não cuides 
Que te desgraças: 
             Vês? 
Três são as Graças, 
Três as Virtudes; 
             Três. 

As folhas santas 
Que o lírio fecham, 
             Vês? 
E não o deixam 
Manchar, são... quantas? 
             Três! 

João de Deus, in 'Campo de Flores'

sábado, 31 de março de 2012

As vozes em livro, uma edição Pastelaria Studios: a capa e a sinopse


Sinopse: Esta obra reúne uma parte dos muitos textos redigidos por alunos dos 2º e 3º Ciclos da Escola Básica André de Resende, em Évora, ao longo do ano letivo 2011/12. É uma resposta ao desafio lançado pela Pastelaria Studios: um convite à escrita, um convite aceite por crianças e jovens que gostam de escrever.
São vozes, as vozes das vivências e experiências, expectativas e interrogações, dos costumes e tradições, amores e paixões, as vozes de quem escreve o que sente, o que vive.

 partilhado do blogue: Vozes de lá e de cá

quarta-feira, 28 de março de 2012

COMO SE DESENHAM OS PERFUMES E O CALOR DA PRIMAVERA?


Recordo o dia em que Ana, a colega do ensino especial que me apoia na sala, referiu o facto de em todas as salas por onde passava já ser outono menos na minha.

Em verdade, só não era outono ainda na sala embora já o fosse oficialmente no calendário, porque ninguém ainda o tinha trazido para dentro da sala…

Às vezes tenho alguma dificuldade em que os outros entendam que há rotinas perfeitamente desnecessárias. Por que razão há-de ser outono dentro da sala se ainda ninguém sentiu o outono? Ele haveria de chegar sem pressas e sempre na altura certa. Aquela em que todos desejássemos que assim fosse.

Já com a primavera foi diferente. Acho mesmo que esta nunca saiu da sala. Talvez porque também nunca chegou a desinstalar-se verdadeiramente no exterior. Por todos os cantos do jardim da escola houve todo o inverno, cheiros e flores de primavera. O céu de inverno esteve sempre azul e o sol quase nunca conseguiu esconder-se por entre as nuvens.

E foi numa destas manhãs, embora no calendário ainda não fosse primavera. Que a Rita durante o recreio se pôs a explicar aos colegas porque já tinha esta chegado!

Apontando os rebentos novos dos arbustos do jardim, dizia aos amigos que tal só acontecia por ser primavera. O grupo ouvia-a com atenção e descobria no muro pequenos bichinhos que pareciam também felizes por ser primavera!
Foi então que os meninos pediram para desenhar a primavera. E queriam fazê-lo ali mesmo no jardim…


Eu limitei-me a observá-los e a ouvir o que diziam. Se há coisa que aprendi com os meninos é que quando conversam só devo falar quando a conversa é mesmo comigo! É que aprendo tantas coisas quando estou só a ouvi-los!

A Margarida teve algumas dificuldades em segurar a folha onde desenhava, foi divertido vê-la correr atrás da folha que o vento resolveu “pôr a voar”! Descobrindo assim a leveza da folha e a intensidade do vento!

- Tens de segurá-la com força! Sugeriu o Afonso.

Uma formiguinha resolveu fazer cócegas no desenho do Rodrigo e por momentos toda a turma seguiu os seus passos até que saiu da folha e lá foi à sua vida.

Estava entretida a olhá-los, quando ouvi o Edgar perguntar:

- Como se desenham os perfumes e o calor da primavera?

Rapidamente, quase sem se fazer esperar a Raquel deu a resposta.

- Desenhas flores no ar e pintas o sol com muita cor de laranja!

Não tive a mínima dúvida, a primavera tinha mesmo chegado!


Teresa
 http://buziodovento.blogspot.pt

terça-feira, 20 de março de 2012

NÃO POSSO ADIAR O AMOR

Não posso adiar o amor para outro século 
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração

António Ramos Rosa

sábado, 17 de março de 2012

TUDO O QUE TENHO

Quero entrar num estado de cúpula,
num estado em que tudo em mim se cerre ao incómodo
e apenas aquilo que vivo permaneça em vida, vivo.
Carregar aos ombros apenas a qualidade
do mundano que fazíamos, ou as rotinas que de sã doença nos marcavam.
Quero seleccionar apenas aquilo que me afaga o estômago
e lançar a público o enjoo que tudo o resto me dava,
para evitar que a tal me não voltem a sujeitar.
Ainda que o mereça, não quero.
Sinto que a verdade é, agora, mais do que nunca,
apenas uma palavra, desprovida de significado, de sentido.
Não há verdade quando o meu sentido é agora a tua mão,
a mesma que ainda pego com cautelas mas que deixo conduzir-me.
E não foi sempre assim?
Tu uma direcção, um sentido no que eu era de desgoverno?
Tu uma ideia clara a brotar de um problema irresolúvel?
Em ti a retórica absolutamente direccionada ao sentimento,
fugidia ao estudo, à perseverança dos livros, apenas naturalidade.
E como eu o tentei.
Estudei os mestres, os clássicos, os que mobilizavam pequenas
multidões a ouvir o impronunciável sem me dar conta
que descendia de uma escola cujo mestre eras tu.
Eu tive o mestre, não aquele que mobiliza multidões acordeiradas
mas o genuíno, o mestre que mobiliza a pequena multidão
abnegada que carrego no meu corpo, um dia frágil,
mas agora um torpor inaudível por se saber assim educado.
Tudo o que tenho trago comigo, e nada mais me falta,
saber apenas que tudo o que tenho trazes contigo.

Vicente Fino (http://umexilado.blogspot.pt)

sexta-feira, 9 de março de 2012

LER É...


Visitando o blogue Búzio do Vento, avivaram-se as saudades dos meus meninos/alunos e das nossas aulas. Estavam eles no 4.º ano, quando alguns escreveram:


Ler é um clarão branco que dá luz à vida.
Daniela Geadas

Ler é um corredor de escrita que está na floresta. É ir para dentro do livro. Se gostarmos de ler, os livros dão-nos abraços fortes.
Margarida Cordeiro

Ler é uma aventura a tocar nos meus olhos. 
Raquel Copeto

Ler é um beijo profundo nas palavras.
Andreia Pardal

Ler é um assopro do coração, o oceano a nascer, uma flor a sonhar. 
Teresa Soares

Ler é sentir e imaginar como se fossemos as próprias personagens.
Daniel Marques

Ler é estar a voar numa nuvem cheia de fantasia, alegria e poesia. 
Débora Gomes

Ler são gaivotas ao pôr do sol (palavras), por cima do mar brilhante.
Ana Catarina

Ler é entrar num mundo de fantasia e poder sonhar com o que estou a ler. 
Marisa Passos

Ler é partilhar com os nossos olhos aquilo que os livros dizem, aquilo que as palavras dizem. 
Helena Flor da Rosa

Para mim ler é navegar… navegar… no mar, na terra ou no ar e dançar sem nunca mais parar. 
Daniela Alvarinho


quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

POEMA A 4 MÃOS

julguei ser possível o mar
o precipício doce
para o fim das vergastadas
ousei nadar até ao mar alto
lugar onde elas são inúteis
foi apenas um recorte do tempo imenso
um vento desviou a proa do navio
e devolveu-me à beira-mar
onde a verdade virgem é degolada
e passeamos com pés de larva
a natureza tudo acolhe
o bem e o mal
as ilusões idiotas
a ganância
a futilidade do poder
a beleza do amor
os sonhos puros de justiça
os gestos ancorados na verdade
conforme o ritmo e a cadência das marés
lhe comandam o remar

José Manuel Marinho (poemar-te) e Marta Vasil (lua com dona)