sábado, 17 de março de 2012

TUDO O QUE TENHO

Quero entrar num estado de cúpula,
num estado em que tudo em mim se cerre ao incómodo
e apenas aquilo que vivo permaneça em vida, vivo.
Carregar aos ombros apenas a qualidade
do mundano que fazíamos, ou as rotinas que de sã doença nos marcavam.
Quero seleccionar apenas aquilo que me afaga o estômago
e lançar a público o enjoo que tudo o resto me dava,
para evitar que a tal me não voltem a sujeitar.
Ainda que o mereça, não quero.
Sinto que a verdade é, agora, mais do que nunca,
apenas uma palavra, desprovida de significado, de sentido.
Não há verdade quando o meu sentido é agora a tua mão,
a mesma que ainda pego com cautelas mas que deixo conduzir-me.
E não foi sempre assim?
Tu uma direcção, um sentido no que eu era de desgoverno?
Tu uma ideia clara a brotar de um problema irresolúvel?
Em ti a retórica absolutamente direccionada ao sentimento,
fugidia ao estudo, à perseverança dos livros, apenas naturalidade.
E como eu o tentei.
Estudei os mestres, os clássicos, os que mobilizavam pequenas
multidões a ouvir o impronunciável sem me dar conta
que descendia de uma escola cujo mestre eras tu.
Eu tive o mestre, não aquele que mobiliza multidões acordeiradas
mas o genuíno, o mestre que mobiliza a pequena multidão
abnegada que carrego no meu corpo, um dia frágil,
mas agora um torpor inaudível por se saber assim educado.
Tudo o que tenho trago comigo, e nada mais me falta,
saber apenas que tudo o que tenho trazes contigo.

Vicente Fino (http://umexilado.blogspot.pt)

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